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O que é o
Síndrome de Down ou Trissomia 21?
Autora: Ana Godinho - Especialista em graves problemas de
cognição.
People with Down syndrome are not diseased. They are not
“afflicted with”, “suffering
from”, or “a
victim of” Down syndrome. People have Down syndrome.
Devenny, 1992, 22
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Embora sejam conhecidas descrições anteriores de
crianças com as características desta
problemática, foi apenas em 1866, que John Langdon Down
publicou
um ensaio descrevendo esta população, a quem
chamou de
mongolóide, pelas suas semelhanças
físicas com as
pessoas da Mongólia. Esta
classificação infeliz,
que gerou polémica na comunidade científica
internacional, foi alterada no âmbito de uma
revisão
americana de termos científicos, para Síndrome de
Down
(Leshin, 1997).
Os primeiros a especular que esta problemática poderia
dever-se
a anomalias cromossómicas foram Waardenberg e Bleyer, nos
anos
30. No entanto, foi apenas em 1959, que Lejeune e Jacobs (trabalhando
independentemente) identificaram a causa como sendo trissomia 21,
enquanto que as variantes translocação e
mosaicismo foram
identificadas nos três anos seguintes (Pueschel, 1993;
Leshin,
1997).
A síndrome de Down é considerada a causa mais
comum de
dificuldades de aprendizagem, havendo uma prevalência de
cerca de
uma criança em cada 600-800 nascimentos (Buckley &
Bird,
1994). A trissomia 21, caracterizada pela existência de um
cromossoma a mais no par 21, é considerada
responsável
por cerca de 95% dos casos de síndrome de Down e acontece
devido
a uma divisão celular atípica que produziu um
óvulo ou um espermatozóide com 24 cromossomas em
vez de
23. Quando este óvulo ou espermatozóide de fundem
com um
óvulo ou espermatozóide normais, a primeira
célula
do bebé em desenvolvimento tem 47 cromossomas em vez de 46 e
todas as células desse bebé terão 47
cromossomas.

Figura
1. Divisão celular
responsável por uma trissomia 21.
Dos restantes casos de síndrome de Down, 3 a 4% devem-se
à Translocação Robertsoniana, em que a
alteração envolve geralmente os pares 14 e 21,
onde parte
do cromossoma 14 é substituído pelo cromossoma 21
extra.
Os restantes casos (cerca de 1%), correspondem ao Mosaicismo, no qual
são encontradas células com um conjunto normal de
cromossomas e células com trissomia 21 (Pueschel, 1993;
Leshin,
1997).
Figura
1. Cromossomas de uma
criança com síndrome de Down.
A seta indica o cromossoma 21 extra.
No
decorrer das
últimas décadas, muito tem sido especulado sobre
as
causas da síndrome de Down. Investigadores têm
relatado a
exposição a radiações,
administração de certas drogas,
infecções
virais, problemas hormonais ou imunológicos, entre outros,
como
possíveis causadores da síndrome. Não
há,
no entanto, evidências claras de que essas
situações sejam responsáveis pelo
quadro descrito.
Encontra-se, por outro lado, uma associação entre
a idade
materna e a ocorrência da síndrome de Down, mais
propriamente relativamente à idade avançada da
mãe, o que levou à
instituição generalizada
de diagnóstico pré-natal em grávidas
com mais de
35 anos de idade. Continua, no entanto, por explicar o que faz com que
a divisão celular ocorra atipicamente (Buckley &
Bird, 1994;
Pueschel, 1993).
Devido à alteração da
informação
genética contida no par 21, as crianças com
síndrome de Down apresentam um conjunto de
características físicas comuns, que as tornam
parecidas
entre si. Apresentam a cabeça menor do que as outras
crianças, na maioria dos casos com braquicefalia (levemente
achatada); podem existir áreas com falta de cabelo (alopecia
parcial) ou, mais raramente, alopecia total; os ossos faciais
encontram-se pouco desenvolvidos, o nariz é pequeno e os
olhos
apresentam as pálpebras estreitas e oblíquas; as
orelhas
são pequenas, com a estrutura ocasionalmente alterada e os
canais do ouvido mais estreitos; a boca é pequena, o palato
estreito e a língua larga e estriada; a
erupção
dentária geralmente é atrasada e os dentes surgem
mal
implantados; o tórax tem um aspecto alterado, com o osso
peitoral afundado ou projectado; as mãos e os pés
tendem
a ser pequenos e grossos; a pele é geralmente clara e
sensível ao frio (Pueschel, 1993).
A literatura descreve também um vasto conjunto de problemas
do
foro clínico, encontrados nas crianças com
síndrome de Down, dividido entre anomalias
congénitas e
doenças posteriores.
De entre as primeiras, evidencia-se a cardiopatia congénita,
que
afecta cerca de 40% destas crianças e que frequentemente
exige
intervenção imediata (Buckley & Bird,
1994; Pueschel,
1993).
Nos relatos da investigação encontram-se
normalmente
atribuídas a esta síndrome,
situações
clínicas que surgem durante a infância, como
infecções respiratórias, baixo aumento
de peso na
primeira infância, relacionado com os problemas
cardíacos,
com tendência para a obesidade a partir da
adolescência,
défices visuais, défices auditivos (60%-80%),
disfunção da tiróide, entre outros
(Pueschel,
1993).
Até recentemente, a ideia geral era de que nas
crianças
com síndrome de Down se manifestaria inevitavelmente um
atraso
de desenvolvimento severo, com poucas possibilidades educativas,
sobretudo a nível da aprendizagem da leitura e escrita,
assumindo-se que se tornariam adultos mais ou menos dependentes, sem
capacidade, nomeadamente, de conseguir um emprego. No entanto, os
relatos de investigação mais recente,
dão conta de
inúmeras situações em que estas
crianças
mostram um desenvolvimento superior e se tornam em adultos com
condições de participar na vida da sua
comunidade, de
forma independente e útil (Buckley & Bird, 1994) e
sabe-se
hoje que a síndrome de Down não resulta
inevitavelmente
em níveis de deficiência mental severos ou
profundos
(Kliewer, 1994; Wishart, 1998).
Na origem desta mudança estarão oportunidades de
vivenciar mais experiências a nível familiar e
social,
avanços na medicina, intervenção
precoce e
oportunidades educativas posteriores e uma mudança de
atitude
geral relativamente à deficiência.
Contudo, não se pode ignorar o grande leque de
diferenças
individuais evidenciado nestas crianças, já que a
síndrome parece afectar mais umas crianças que
outras e o
diagnóstico de síndrome de Down não
permite prever
o desenvolvimento nem lhe coloca limites em termos de idade
cronológica.
A noção de que o seu Quociente de
Inteligência
declina com o avanço da idade, também tem sido
rebatida,
por se considerar hoje que estas crianças progridem
continuamente, apenas a um ritmo consideravelmente mais lento do que as
crianças com desenvolvimento típico, com quem
são
sistematicamente comparadas em testes de inteligência
(Buckley
& Bird, 1994).
Muito tem sido debatido sobre se as crianças com
deficiência mental apresentam apenas uma versão
mais lenta
do desenvolvimento típico, ou se se verificam
diferenças
qualitativas no processo de desenvolvimento (Sim-Sim, 1981). No caso
das crianças com síndrome de Down, Wishart (1998)
considera que os resultados da sua investigação
suportam
a visão de que existem diferenças significativas
na forma
como o desenvolvimento se processa, nomeadamente a nível do
que
o autor denominou o “estilo” de aprendizagem destas
crianças. Wishart define alguns aspectos que parecem
caracterizar o seu desenvolvimento cognitivo, nomeadamente o uso
crescente de estratégias de evitamento, ao defrontarem-se
com
desafios cognitivos, fraco uso de capacidades de
resolução de problemas, dificuldade em consolidar
capacidades cognitivas recém-adquiridas e uma
relutância
crescente em tomar iniciativas na aprendizagem.
Apesar da perspectiva diferente com que se encara hoje a
problemática da síndrome de Down, é
importante
não esquecer as limitações
biológicas
severas colocadas ao desenvolvimento destas crianças pela
anomalia genética (Wishart, 1998) e é evidente
que este
se processa de forma diferente das crianças com
desenvolvimento
típico, demonstrando dificuldades a nível da
cognição, linguagem, motricidade e autonomia
pessoal.
Apesar das diferenças individuais, verifica-se um atraso no
desenvolvimento cognitivo, evidente a nível perceptivo, bem
como
da atenção e memória.
Vários estudos
indicam que estas crianças processam mais facilmente
informação apresentada visualmente do que por via
auditiva, o que parece estar relacionado com o seu desenvolvimento
limitado a nível da memória auditiva de curto
termo
(Bower & Hayes, 1994; Buckley & Bird, 1994).
O processamento de informação auditiva,
indispensável ao desenvolvimento da linguagem, encontra-se
afectado nas crianças com síndrome de Down, em
virtude de
problemas físicos, que afectam o funcionamento dos ouvidos,
garganta e cavidade oral e, consequentemente, a qualidade da entrada de
informação auditiva.
O processamento auditivo sequencial, ou seja, a capacidade de receber
informação auditiva e processá-la na
forma
sequencial, é indispensável à
compreensão
de cadeias de frases (Doman, 1999).
O desenvolvimento motor atípico das crianças com
síndrome de Down manifesta-se desde logo pela hipotonia que
lhes
é característica, preferindo normalmente
padrões
de movimento que requeiram mínimo dispêndio de
energia, o
que reflecte mais o esforço exigido do que uma
predisposição para ser preguiçoso
(Kliewer, 1994).
Como consequência, verifica-se um atraso nas
aquisições a nível da
preensão de objectos
e deslocação (gatinham, colocam-se de
pé e
adquirem a marcha tardiamente), o que faz com que a sua
exploração do mundo em redor seja mais limitada
(Buckley
& Bird, 1994). Manifestam dificuldades no desenvolvimento de
capacidades de equilíbrio, coordenação
de
movimentos, controlo motor e relações
espacio-temporais
(Sampedro et al., 1993) e alguns investigadores relatam dificuldades no
uso de informação sensoriomotora para executar
ordens
motoras (Kliewer, 1994).
Segundo Cicchetti & Beeghly (1990), o desenvolvimento
intelectual
depende provavelmente de aquisições motoras
anteriores,
como o controlo postural. A falta de um controlo autónomo
pode
dificultar o desenvolvimento de capacidades motoras finas, como agarrar
e usar objectos, tarefas nas quais a estabilidade postural permite a
concentração da atenção da
criança
na tarefa. Sendo este tipo de capacidades encarado como percursor da
actividade cognitiva, poderá estabelecer-se um elo entre as
dificuldades motoras iniciais e o atraso intelectual posterior
(Cicchetti & Beeghly,1990; Spiker, 1990).
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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Research
and Practice, vol 2, issue 2: 47-50. Portsmouth: The Down Syndrome
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BUCKLEY, S. & BIRD, G. (1994). Meeting the Educational Needs of
Children with Down Syndrome – A handbook for teachers.
Portsmouth: The Down Syndrome Educational Trust.
CICCHETI, D. & BEEGHLY, M. (1990). An organizational approach
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the study of Down syndrome: contributions to an integrative theory of
development. In D. Ciccheti, and M. Beeghly, (eds.), Children with
Down’s Syndrome: A Developmental Perspective. Cambridge:
Cambridge University Press.
DEVENNY, D. (1992). People with Down Syndrome. Down Syndrome Today,
Spring 1992, Vol. 1, No 2, p. 22.
DOMAN, R.J. (1999). Language Acquisition in Children with Down
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12, nº 1.
KLIEWER, C. (1994). Issues Involved in Facilitated Communication and
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LESHIN, L. (1997). Trissomy 21: The story of Down Syndrome, F.A.A.P..
Retirado em 6/4/01 da World Wide Web.
http://www.dshealth.com/trisomy.htm
PUESCHEL, S. (ORG.) (1993). Síndrome de Down –
guia para
pais e educadores. S. Paulo: PAPIRUS.
SAMPEDRO, M.F., BLASCO, G.M. & HERNÁNDEZ, A. M.
(1993). A
criança com Síndrome de Down. In R. Bautista
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Necessidades Educativas Especiais. Lisboa: Dinalivro.
SIM-SIM, I. (1981). Perspectivando a aquisição da
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Cadernos do
COOMP, nº6: 55-64, Lisboa.
SPIKER, D. (1990). Early intervention from a developmental perspective.
In D. Ciccheti, and M. Beeghly, (eds.), Children with Down’s
Syndrome: A Developmental Perspective. Cambridge: Cambridge University
Press.
WISHART, J. G. (1998). Cognitive Development in Young Children with
Down Syndrome: Developmental Strengths, Developmental Weaknesses. Down
Syndrome Research Foundation and Resource Centre. Retirado em 3-6-2000,
da World Wide Web. http://www.altonweb.com/cs/downsyndrome/wishart.html
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